Thaïs Responde


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Sobre o PERFIL e a COMUNICAÇÃO



Tenho recebido muitos e-mails onde me pedem para fazer uma avaliação do perfil preenchido. Sem dúvida, o bom preenchimento do perfil é importante e funciona como uma amostragem daquilo que uma pessoa é capaz de fazer com o que tem em suas mãos, independente do que é e do que quer. Alguns levam vantagem desde a frase de chamada, tornando-se realmente atraentes. Pessoas criativas e com senso de humor costumam ser interessantes.

A experiência de fracassos e sucessos nos contatos serve para indicar a necessidade de eliminar ou reforçar modos de comunicação que são constatados como ineficazes ou, ao contrário, exitosos. Na verdade, pessoalmente, priorizo a capacidade de bem se comunicar em detrimento do preenchimento do perfil. Um perfil bem preenchido atrái, mas uma boa comunicação e as características pessoais contam mais quando se trata de garantir o prosseguimento dos relacionamentos.

A tendência, quase sempre, é dizer que a culpa de nossos fracassos está fora de nós, chegando-se ao ponto de pensar que a culpa é do perfil, quando as coisas não correm como se espera. Ora, o perfil é preenchido por alguém. Na verdade, o perfil não existe, não é sujeito de nada e sim resultado do preenchimento de um autor. E se o autor está cheio de inseguranças, medos, se tem uma baixa auto-estima, se não sabe exatamente quem é e o que quer, ou se deseja realizar, através do site, sonhos totalmente fora da realidade, tudo isso irá se refletir nos contatos e o resultado será predominantemente frustrante.

Quanto mais experiente for uma pessoa, quanto mais inteligente e sensível, mais vantagens terá nessa forma de comunicação. Mas vocês perguntarão: E os que ficam bloqueados, ansiosos, e, por isso, se comunicam mal? Eu respondo que esses irão superar essas dificuldade iniciais. Há problemas, no entanto, que trabalharão contra os objetivos propostos: carência, sofreguidão, possessividade, educação, grau de cultura (muito bem expresso na correção do português), tudo isso interfere e aparece quando uma pessoa se comunica com outra. É normal que se possa ficar com a voz alterada quando se fala ao telefone com alguém que pode já estar sendo desejado e, afinal, ninguém está tratando com robôs; todos têm suas emoções e estas podem levar a pessoa a não se sair bem num primeiro contato, o quê pode ter efeitos negativos ou não, dependendo do interlocutor.

Diante de alguém que não se conhece ainda bem, o "eu improvisador" é fundamental. A capacidade de lidar com situações inesperadas, novas, é fruto de um investimento que se fez em si, e de um bom aproveitamento das experiências acumuladas durante a vida de cada um. Pessoas pouco flexíveis e ingênuas, que viveram em redomas e cultivam o que aprenderam sem se perguntar se o que aprenderam continua a fazer sentido terão mais dificuldade de sustentar o interesse daquele com quem está se "comunicando", pois tenderão a exibir comportamentos estereotipados que nada têm a ver com o outro, a quem supostamente se dirigem. É como se falassem sempre com a mesma pessoa, ignorando a diversidade e singularidade de cada ser humano. Quando se convencem que encontraram sua alma gêmea é como se olhassem no espelho e falassem consigo mesmas.

Quem está obcecado por realizar um desejo ficará incapacitado de ser crítico. Ela é romântica e ingênua. Será que vai atrair só pessoas românticas, como gostaria? Talvez atraia os menos desejáveis: pessoas espertas, insistentes, e com intenções algumas vezes excusas... Um desejo muito intenso termina turvando os sentidos e a razão; no deserto é comum se deixar enganar por miragens...

Quanto à conveniência da foto devo dizer que sua presença tem, a meu ver, um elemento preventivo importante. Vamos dizer que limita a fantasia desvairada de alguns. Sua ausência faz com que pessoas menos situadas na realidade dêem vazão à sua imaginação quanto à existência de um ser fantástico, no qual podem depositar mais facilmente suas idealizações. A presença da foto é emblemática de que existe um outro, real, na comunicação virtual, que funciona como barreira aos devaneios oníricos dessas pessoas. Aliás, uma empatia incomum, a impressão de "ter conhecido desde sempre" aquele (sem rosto) com quem se está em comunicação através de escrita e da voz, é típica da não confrontação no real e justamente da foto em branco, que passa a funcionar como um espelho. Por essas razões, sou absolutamente a favor da presença das fotos.

É possível que muitos não entendam quando me refiro à importância do auto-conhecimento; quando indico uma psicanálise ou uma terapia. É apenas uma maneira de dizer: "Vá se conhecer para ter mais possibilidade de perceber as pessoas com as quais se relaciona, para observar melhor a realidade." Não adianta ver romantismo onde não existe, nem acreditar em paixões que nascem subitamente da fantasia dos que são imaturos ou neuróticos, na melhor das hipóteses, ou, na pior, de elementos mal-intencionados. No mundo real e virtual, é preciso estar atento e saber quem se é, para transitar com alegria, sempre tirando o melhor partido do que a vida tem a oferecer. Para finalizar, mais um aspecto importante a ser considerado: não é atraente nem prudente deixar-se sempre conduzir, submetendo-se ao desejo e às regras do possível parceiro, nem se rebelar propositalmente e sem razões palpáveis, só para se impor.

Thaïs Oliveira - Psicanalista
Coluna "Thaïs Responde"
CRP n° 1821-05


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