Thaïs Responde


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Uma interpretação do desfecho da relação Pimenta Neves versus Sandra Gomide



Tudo indica que o jornalista Antonio Pimenta Neves, de 63 anos, desenvolveu uma relação de ódio com a namorada Sandra Gomide, a partir do término do romance que havia entre os dois. A ligação que mantinha com ela, graças à sua idade, lhe dava uma espécie de garantia contra a idéia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narcísica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como "fúria narcísica". Essa reação pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patológica - e aqui não importa o seu grau de cultura e de experiência - é tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o responsavél pela sua dor, pela perda de seu equilíbrio.

Sandra, com seus 32 anos, ao rejeitar Pimenta, privou-o da impressão de ser ainda um homem jovem, poderoso, viril e, portanto, protegido da morte. Ao invés de entrar em depressão ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como "responsável" pela "ofensa narcísica" que lhe foi imposta, invertendo a situação e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer. Pimenta a castiga e dá a ela o destino natural de um objeto que se torna inútil por não mais poder ser usado: Aqui, jogar no lixo ou tirar a vida têm o mesmo significado.

Sandra, sem saber, pôs um ponto final à situação de efeito "mágico" que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar as perdas que todos sofremos no processo de perda da juventude.

Para certas pessoas portadoras de patologias narcísicas, como parece ser o caso do ex-diretor de redação do Estado de S.Paulo, um quadro depressivo pode sobrevir, levando à tentativa de suicídio: o ódio se volta contra si mesmo e a pessoa tenta se matar.

Dão-se, todavia, oscilações nesses estados de humor: Na circunstância vivida por Antonio Pimenta Neves, o ódio se volta novamente contra o objeto que infrigiu a ele o golpe de ter que se confrontar com sua precariedade com a qual é incapaz de lidar; desfere novos ataques contra Sandra, agora para despojá-la de sua honra e dignidade, tentando evitar que esses atributos sobrevivam apesar de sua morte.

Thaïs Oliveira
Psicóloga e Psicanalista
Rio de Janeiro, 01 de novembro de 2000.


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